Michel Laban “à l´écoute” dos Escritores Cabo-Verdianos

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Alberto Carvalho

Fac. de Letras/Univ. de Lisboa

CLEPUL

 

 

“On observe en fait que la propension à s´orienter vers les positions les plus risquées,
et surtout la capacité de les tenir durablement en l´absence de tout profit économique à court terme,
semble dépendre pour une grande part de la possession d´un capital économique et symbolique important.”

 

Pierre Bourdieu, Les règles de l´art, 1992

 

 

“[...] parecem-me insuficientes tanto a Sociologia que se elabora no abstracto, sem uma indagação rigorosa dos factos,
como aquela que se detém nos dados empíricos e nos resultados estatísticos, em vez de os interpretar com prudência e flexibilidade [...]
Os métodos quantitativos e qualitativos completam-se.”

 

Jacinto do Prado Coelho, Problemática da leitura – aspectos sociológicos e pedagógicos, 1980

 

 

 

 

 

  1. 1. Humanista em esboço

Na tradução de Chiquinho de Baltasar Lopes (Lisboa, 2006), romance em boa hora oferecido por Michel Laban ao público de língua francesa, ficam anotadas na Introduction, em estilo bastante conciso, entre as demais anotações de interesse imediato, as circunstâncias históricas e climáticas de estiagem do Arquipélago de Cabo Verde que condicionam a sua realidade crioula. A este intuito expresso de justificar alguns dos principais temas que no texto predominam, Michel Laban associa razões abonatórias em causa própria, como sejam as dificuldades levantadas ao tradutor interessado em assegurar a mais completa paleta de tonalidades da linguagem do Autor que põe em andamento, com a sua autoridade de linguista e de filólogo, um original (e inovador à sua época) registo discursivo de crioulização do português.

 

Fixemos duas ideias. Nem por ser breve a Introduction deixa de se revelar densa de informação rigorosa a que só tem acesso um ensaísta laborioso, aplicado em trabalhos de investigação e de porfiado estudo. E, embora ressortissant de língua francesa, Michel Laban possuía uma sensibilidade em sintonia, qualidade indispensável a uma tradução de notável justeza, implicada no perscrutar do vigor criativo de Baltasar Lopes, para preservar esse colorido verbal do enunciado e afeiçoar-lhe a longa frase musical. Assim se pôde conservar, do original para a tradução, a ondulação supra-segmental dos enleios emocionais embaladores, e assim, ainda, os ritmos lírico e elegíaco que os modulam em evocação nostálgica da terra madre, ressentida pelo crioulo há muitos anos emigrado na América, e logo inscritos no incipit do texto (Lopes, 2006: 33): “Como quem ouve uma melodia muito triste, recordo a casinha em que nasci no Caleijão”[1].

 

Registemos ainda duas outras ideias. Estes “perscrutar” e “afeiçoar” representam atributos humanos que devem ser postos em adequado relevo para poderem significar a atitude dialogal de empenho do tradutor-ensaísta, pronta para ouvir o outro e lhe falar numa maneira de dizer sem reserva preconceituosa e, mais ainda, disponível para o compreender numa relação pessoal valorativa. Ao perfil intelectual de Michel Laban aderem, a nosso ver, por carácter e por formação, as qualidades do estudioso humanista, movido pelo propósito de harmonizar orientações estéticas que nos tempos de hoje mais claramente entram em relação contrastiva. De um lado, cultiva-se a atenção aos textos e às formas de escrita que sustentam os diferenciais poéticos dos criadores (em prosa e poesia) e, do outro lado, não se descura a atenção ao papel cultural que desempenham, enquanto homens do seu tempo.

 

Homens, obras, lugares e tempos representam as categorias basilares da valoração necessária ao correcto resgate de uma historiografia descritiva dos campos literários e seus variados artefactos e, no limite, imprescindíveis à integração sociológica da cultura literária, v.g., à promoção da “mise-en-scène” entre os livros, os Autores e os endereços ao público leitor de diversificada apetência.

 

Emblemático é, por isso, o próprio projecto editorial de Michel Laban concretizado com as publicações dedicadas aos intelectuais de Angola, Cabo Verde e Moçambique, sob o título Encontro com Escritores (Laban, [1992]). A despeito de a recolha dos materiais ter sido obtida na forma geral de “entrevistas”, o título evita claramente, como se vê, a frieza inerente a este tipo de prática quase jornalística, em favor do descritor circunstancial do “encontro”. Tenha sido casual ou deliberada a escolha deste lexema, nem por isso deixa de conotar plenamente uma atitude relevadora de impecável deôntica profissional e, mais intrinsecamente, da atitude ética-humanista que não parece retirar satisfação dos relacionamentos de paridade “pergunta-resposta”, sempre dominantes em entrevistas estritamente orientadas, preferindo conceder o maior protagonismo aos interlocutores no espaço cúmplice dos encontros.

 

Contra o que seria mais previsível, não é na publicação da primeira caixa, sobre Angola, mas apenas na segunda, dedicada a Cabo Verde, que Michel Laban enuncia o travejamento minimalista do guião do seu projecto, quanto aos motivos e aos objectivos gerais que o moviam: i). circunstâncias de produção das obras; ii). esclarecimento dos principais temas focalizados; iii). informações elucidativas sobre a vida e experiência humana e cultural dos escritores; iv). apresentação de dados para o leitor “reconstituir com mais precisão os meandros do pensamento do escritor entrevistado” (Laban, [1992]: 5).

 

Cingindo-nos apenas à área cabo-verdiana, que de preferência elegemos, diremos então que, embora subjacente a todas as entrevistas aos vinte e cinco autores de que o elenco se compõe[2], aquele conjunto de itens seria diversamente evocado e desenvolvido, de modo a não condicionar a espontaneidade (e particularismo) das exposições. Aliás, o facto de a sua ordem (i, ii, iii, iv) não obedecer à sequência lógica da fenomenologia sócio-literária é outro conotador dos atributos humanos a que já aludimos na predicação de Michel Laban, agora ao serviço da táctica da permeabilidade. Em vez das respostas mais ou menos extorquidas, intencionadas segundo o ordenamento cego das questões postas aos autores, antes as procurava enriquecer ao permitir-lhes navegarem num mar sem fim à vista de ideias engendradas conforme as idiossincrasias de cada um.

 

Habilmente, pois, com oportunidade e pertinência, sem descurar os objectivos que tinha em vista, Michel Laban servia-se da liberdade da palavra deixada aos escritores para, a partir dos testemunhos únicos deles, com seus tempos e experiências históricas, esboçar a inteligibilidade de uma diacronia literária de cinco décadas (1930/36-1986). Em prejuízo da eficácia da metodologia própria dos encontros, prevalecia esse pendor humanista do entrevistador, em aparência confinado a um lugar de escuta passiva (mas, se necessário, inquiridora, interpelativa, questionadora), que facultava aos entrevistados o espaço aberto necessário aos seus protagonismos ecléticos de contadores da História. Umas vezes em papéis de sujeitos dos factos relatados, outras vezes de figurantes, alguns testemunhos anexam a condição de detentores exuberantes das falas reveladoras de vivências humanas, umas pessoais e outras colectivas, não raro afins dos géneros “crónica”, “autobiografia”, “caso”.

 

Porque a nossa intenção é celebrar a memória de Michel Laban, pretendendo que a intencionalidade deste texto que compomos se cumpra no mesmo sentido ou, melhor ainda, no sentido da recordação-lembrança, na acepção de Emil Staiger, insistimos na virtude humanista que o caracterizava. Graças a ela podia dispor da referida capacidade de escuta paciente, interessante chave subreptícia que usava para aceder ao outro lado das questões, como se preceitua no item geral acima referido: “reconstituir com mais precisão os meandros do pensamento do escritor entrevistado”.

 

O resultado mais imediato consiste na oferta aos leitores curiosos de uma galerias de figuras voluntariamente compostas pelos autores, entre duas fronteiras de atitudes. Por efeito de situação, tem-se de uns o retrato de corpo inteiro e a radiografia expurgada até à abstracção intelectual. Por referência contextualizada, obtém-se de outros o jogo entre o empenhamento social e ideológico (com uma larga gama de matizes) e a reserva estética das escritas enquanto expressão existencial e, por estilo-retórica, deduzem-se de todos as devidas formulações típicas, umas vezes veementes, outras convictas da missão cultural (e/ou ideológica), outras ainda tocadas de evasiva ironia, outras finalmente de pendor minimalista por reserva e concisão.

 

Pelo facto de os materiais gravados terem sido “sempre submetidas à correcção dos entrevistados” (Laban,1992:5) as verdades almejadas pelos escritores ficam por eles garantidas. Para além de assim se evitarem os equívocos por descontextualização, por eles sancionadas as suas verdades-testemunhos permitem-lhes comparecer na historiografia literária com as imagens preferencialmente focalizadas no que queriam dar a conhecer[3].

 

Com vista a optimizar os textos dos “Encontros”, no quadro da função didáctica que também convinha ao docente universitário Michel Laban, do aparato geral constam, em benefício do material de consulta de tipo usual, os oportunos índices temáticos no início das entrevistas, com listagem dos tópicos mais importantes e, no final, os índices gerais e onomásticos de orientação remissiva (em cada volume).

 

 

2. Breve radiografia sociológica


De um ponto de vista pedagógico, cremos ser esclarecedor o cotejo entre alguns dos dados materiais que se oferecem à observação, sobretudo os índices introdutórios e as páginas de entrevista de onde o ensaísta os compulsou. Mas, por outro lado, sendo inútil nesta abordagem entrarmos na minúcia do critério por nós adoptado na selecção dos tópicos listados nos índices, para uma radiografia satisfatória bastam-nos os dados tal qual surgem nos campos significantes: i). número de páginas de cada uma das entrevistas; ii). temas registados mais importantes e iii). proporção caso a caso entre número de páginas e número de temas.

 

Quadro I

 

Nome de Autor

 

escala

Nº absolutos

coeficientes

pág.

tema

pág./tema

tema/pág.

Orlanda Amarilis

A-0

16

16

1,00

1,00

Oswaldo Osório

A-0

24

24

1,00

1,00

J.H. Oliveira Barros

A-0

17

17

1,00

1,00

Arménio Vieira

B-1

30

35

0,86

1,17

J. Alfama, J.L .Hopffer, M. Delgado, Brito Semedo

B-1

36

42

0,86

1,17

Jorge Carlos Fonseca

B-1

28

33

0,85

1,19

Corsino Fortes

B-1

40

49

0,82

1,23

Aguinaldo Fonseca

B-2

12

16

0,75

1,33

Luís Romano

B-2

17

24

0,71

1,41

Tomé Varela da Silva

B-2

14

20

0,70

1,43

Teobaldo Virgínio

B-2

9

13

0,69

1,44

João Varela

B-2

19

28

0,68

1,47

Mário Fonseca

C-1

21

20

1,05

0,95

Manuel Lopes

C-1

18+20

36

1,06

0,95

H. Teixeira de Sousa

C-1

58

53

1,09

0,91

Manuel Ferreira

C-1

55

50

1,10

0,91

Germano Almeida, Leão Lopes, Rui Figueiredo

C-2

77

68

1,13

0,87

Gabriel Mariano

C-2

82

71

1,15

0,86

Manuel Veiga

C-2

47

37

1,27

0,79

Baltasar Lopes

C-2

45

34

1,32

0,75


Legenda

Escala A-0: nº de páginas idêntico ao nº de temas;

B-1: redução do nº de páginas em relação ao nº de temas;

B-2: maior redução (do que em B-1) do nº de páginas em relação ao nº de temas;

C-1: aumento do nº de páginas em relação ao nº de temas;

C-2: maior aumento (do que em C-1) do nº de páginas em relação ao nº de temas.

 

De acordo com a lição em epígrafe, do Prof. Jacinto do Prado Coelho, os dados expostos no Quadro I permitem-nos uma abordagem analítica com valor de simples princípio ordenador, de modo a que, em concreto, se tornem nítidas as discrepâncias de interesse hermenêutico. Uma aplicação metodológica que se movimente à superfície dos dados, aconselha a listá-los da maneira escalonada que se indica na “Legenda”. Em vez da ordem dos nomes na sucessão das entrevistas, que respeita a diacronia geracional dos mais velhas para os mais novos, a disposição por grupos homogeneizados pelos dados que entram nos coeficientes oferece muito maior poder explicativo.

 

Assim, reunindo num conjunto designado “A-0” as entrevistas de coeficientes em “pág./tema” e em “tema/pág.” da mesma ordem de grandeza numérica (1,00/1,00), os demais conjuntos podem ser distribuídos em sequências duas a duas, comparáveis em relação a este eixo tornado referência. Em sequência decrescente vêm “B-1” e “B-2” por redução da relação entre páginas e temas conexos e, em sentido inverso, as sequências crescentes de “C-1” e “C-2” por aumento das mesmas relações entre páginas e temas. Embora redundante quanto à economia geral de meios, as duas fórmulas de cálculo dos coeficientes servem de apoio ao enfoque que se pretenda privilegiar, o da extensão dos textos que refracta a loquacidade dos entrevistados, ou o da densidade das substâncias semânticas de interesse literário directo.

 

Em conformidade ainda com o princípio ordenador, neste caso analítico, admitimos que, como na maioria das questões literárias (na ocorrência trata-se de entrevistas a escritores), o primeiríssimo item interessante é o relativo aos conteúdos dos textos, da mensagem que veiculam. O ângulo metodológico adequado a tal quesito recomenda que se parta do conjunto “B-1”. Por posição, em referência a “A-0”, revela um começo de decréscimo do número de páginas relativamente ao número de temas (coeficientes de “pág./tema” entre 0,86 e 0,82). Observado em sentido inverso, tem-se um primeiro crescimento da densidade dos temas das entrevistas (coeficientes de “tema/pág.” entre 1,17 e 1,23). O conjunto “B-2” aprofunda a tendência, acentuando o decréscimo do número de páginas em relação ao número de temas (coeficientes de “pág./tema” entre 0,75 e 0,68). E, inversamente, de novo, cresce a densidade de substâncias temáticas (coeficientes de “tema/pág.” entre 1,33 e 1,47).

 

Em relação contrária, e também por referência a “A-0”, o conjunto “C-1” mostra o primeiro aumento de número de páginas relativamente ao número de temas (coeficiente de “pág./tema” entre 1,05 e 1,10) e, consequentemente, uma diminuição de densidade de temas (coeficientes “tema/pág.” entre 0,95 e 0,91). Segue-se-lhe por fim o conjunto “C-2” que reúne os mais altos registos de número de páginas em relação ao número de temas (coeficiente de “pág./tema” entre 1,13 e 1,32). Novamente em sentido inverso, decresce a densidade das substâncias temáticas (coeficiente em “tema/pág.” a descer de 0,87 até 0,75).

 

Interpretadas no plano mais elevado da ordem do discurso, as variações de forma podem-se explicar pela refracção matizada dos estilos preferenciais dos entrevistados. Se uns adoptam uma linguagem mais expurgada, mais e mais concisa para exporem aquilo que entendem dever ser dito de interesse temático-literário, outros preferem, em sentido contrário, as exuberâncias enunciativas. Desviarem-se do essencial indicado no guião das entrevistas e enveredarem por questões de circunstancialismo contextual, de especificação teorética e de muitas outras conexas, pode ser tomado por manifestação sintomática (“sintoma”: elemento significante a ser descodificado) do estado em que lhes parecia encontrar-se o espaço cultural-literário cabo-verdiano.

 

Tudo se passa como se esse espaço revelasse um assinalável défice no tocante à actividade emuladora, sob a batuta de uma crítica capacitada para desafiar os autores e as obras para querelas e protagonismos em torno da terapia da palavra. Na falta desse cenário, as entrevistas ofereceriam uma tribuna possível de função supletiva. Dado o facto de um número apreciável de escritores viver disperso pelos mundos da diáspora, talvez parecesse só restar a ocasião das entrevistas para uma reunião do disperso e para se pôr à disposição deles um meio eficaz de manifestação pública, na expectativa de as suas ideias serem atentamente lidas.

 

 

3. Análise/interpretação


Com evidente crueza, a materialidade dos números acima expostos exibe notórias discrepâncias entre o essencial temático e o acessório discursivo, factos que, para além do que acabamos de conjecturar a respeito da cena literária cabo-verdiana, não são em si mesmos aquilo que parecem. A compilação e mapeamento de dados não dispensam, não apenas a cuidada interpretação, mas também e, por vezes, sobretudo, a valoração do acessório de alcance circunstancial. Cremos ser sintomático, p.ex., o facto de pertencer a Baltasar Lopes o mais reduzido registo proporcional de temas de imediato interesse literário, bem como a Manuel Veiga e a Gabriel Mariano (C-2). Também inesperadas são as ocorrências conjuntas de determinados nomes, num caso de Aguinaldo Fonseca, Luís Romano, Tomé Varela da Silva, Teobaldo Virgínio, João Varela (B-2) e, no outro, de Mário Fonseca, Manuel Lopes, Henrique Teixeira de Sousa, Manuel Ferreira (C-1).

 

Se, no conjunto de “C-2”, a narrativa (romance e/ou conto) e a poesia convêm a Baltasar Lopes e a G. Mariano, o que primeiro define M. Veiga é a linguística e só depois a narrativa literária (romance). E assim também no conjunto “B-2” que, nos extremos contrastivos (genológicos), regista a vasta obra poética e narrativa (poesia, romance, conto) de João Varela (João Vário, Timóteo Tio Tiofe, G.T Didial) e a obra também notável em trabalho de campo de Tomé Varela, dedicada às tradições orais, em crioulo.

 

Antes de mais, diremos que tais aparentes contrastes se ficarão a dever ao efeito conjugado de distintos factores, primeiramente formais, mas de algum modo associados ao que acima referimos quanto a fronteiras de atitudes e a situações, por referência e por estilo, particulares ao discurso de cada um dos escritores.

 

Conforme as indicações sobre o processamento das entrevistas, registemos o dado circunstancial de terem sido realizadas por correspondência as de João Varela (19 pág. e 28 temas, coeficientes 0,68 e 1,47), de Mário Fonseca (21 pág. e 20 temas, coeficientes 1,05 e 0,95), de Aguinaldo Fonseca (12 pág. e 16 temas, coeficientes 0,75 e 1,33), de Luís Romano (17 pág. e 24 temas, coeficientes 0,71 e 1,41), de Teobaldo Virgínio (9 pág. e 13 temas, coeficientes 0,69 e 1,44) e de Tomé Varela da Silva (14 pág. e 20 temas, coeficientes 0,70 e 1,43).

 

Ao serem mais concisas do que as restantes (excepto no caso de Mário Fonseca) e, logo, mais densas de conteúdos, as respostas deste grupo tendem a confirmar a máxima de escopo atávico que fala do carácter repressivo do registo da escrita[4]. Dando-lhe um sentido analítico, diremos que manifestam ostensivamente o que já se sabe pertencer à ordem lógica dos respectivos registos. Enquanto a resposta escrita assume por regra a maior obediência à lógica hipotáctica de encadeamento de ideias, evitando desvios que dêem à linguagem um andamento frouxo ou dispersivo, a oralidade-coloquialidade (das restantes entrevistas) não sofre de tais restrições. Uma das suas virtudes consiste, aliás, em utilizar livremente o mecanismo associacionista (analogia, contraste, contiguidade), entre o dado e o que vem a propósito, para contrecarrer a ordem linear dos discursos.

 

Por um motivo, a resposta de Mário Fonseca e, por outro, a de João Varela, fogem ambas à regra das outras obtidas por correspondência. Usando uma linguagem bastante concisa, em texto muitíssimo compacto por adensamento de ideias, João Varela nem sequer tem em conta a escansão das questões postas pela matriz-questionário. A esta forma de resposta opõe-se a de Mário Fonseca por fazer intervir um maior despiste de dados que iluminam adequadamente as circunstâncias da sua poesia, em particular o facto de a composição de uma parte dela se realizar em língua francesa.

 

Encarando o assunto pelo lado oposto ao do autor entrevistado, diremos do leitor ser livre de imaginar que a concisão resulta, por hipótese, de um efeito de estilo que se explica, entre outras razões pessoais, pela vantagem da resposta minimalista, todas as vezes que prevalecer o pudor autorial em entrar em pormenores de oficina literária, na ausência de diálogo entre entrevistador e entrevistado. De qualquer modo, são hipóteses e razões que diversificam os casos de preferência pela entrevista escrita que, na verdade, concede ao autor uma maior folga de liberdade para compor de si a imagem pretendida, menos viável na situação dialogal condicionada pela interpelação do entrevistador.

 

Assim sucede com João Varela, mas também com Manuel Lopes cuja resposta em suporte escrito só em parte obedece aos tópicos do questionário. Se naquele a liberdade de contornar as questões do guião se refracta na forma compacta e corrida da resposta, no caso de Manuel Lopes as significações do processo são mais elucidativas. Pelo que se deduz das marcas do texto, o escritor terá revisto uma parte substancial da entrevista (Laban, [1992]: 61-78) mas, parecendo não se dar por satisfeito, passou ao que designamos por hiper-correcção do escrito, pessoalizando-lhe a forma e o alcance num textos a que deu o título “Respostas a algumas perguntas dum questionário” (Laban, [1992]: 79-98).

 

E ainda aqui, uma vez mais, fica à vista a bonomia de Michel Laban, porque de um “conflito” de interesses se tratava: entre a entrevista orientada, pretendida e lançada no âmbito de um projecto de trabalho pessoal, e o testemunho livre, vivamente preferido por um ou outro autor, o ensaísta preferiu não lhe coarctar essa satisfação.

 

Entrando agora em linha de conta com os dados absolutos, relativos aos rastreios de cada entrevista, todos os valores de conjunto apresentados se alteram. Excluídas as respostas em grupo, tem a seguinte forma a distribuição de temas: Gabriel Mariano, 71 (82 pág.), Teixeira de Sousa, 53 (58 p.), Manuel Ferreira, 50 (55 p.), Corsino Fortes, 49 (40 p.), Manuel Veiga, 37 (47 p.), Manuel Lopes, 36 (38 p.), Arménio Vieira, 35 (30 p.) Baltasar Lopes, 34 (45 p.), Jorge Carlos Fonseca, 33 (28 p.), João Varela, 28 (19 p.), Oswaldo Osório, 24 (24 p.), Luís Romano, 24 (17 p.), Mário Fonseca, 20 (21 p.), Tomé Varela da Silva, 20 (14 p.), J.H. Oliveira Barros, 17 (17 p.), Aguinaldo Fonseca, 16 (12 p.), Orlanda Amarilis, 16 (16 p.), Teobaldo Virgínio, 13 (9 p.).

 

Como se vem observando, nesta breve abordagem sociológica descurámos a avaliação dos temas segundo o seu interesse literário directo, motivo para reincidirmos na noção que temos procurado esclarecer. As variações entre os 71 e 13 temas (respectivamente, Gabriel Mariano e Teobaldo Virgínio) associam de forma implícita os factores atinentes à tipologia dos discursos pessoais, aos diversificados protagonismos que expõem e, em consequência, à imagem intelectual que o escritor pretende fazer passar de si mesmo.

 

Em relação a esta deliberação autorial (sobre imagens e protagonismos), notemos ainda uma advertência de Jacinto do Prado Coelho. Como quer que seja, a questão dos autores, da auréola que os rodeia, da legibilidade das suas obras, encontra-se sempre sob ameaça, reféns da movência e das conveniências do mercado do livro, dos caprichos e oscilações do gosto do público. Daí, portanto, o interesse destas imagens para a fixação de retratos estáveis.

 

 

4. Perfis de Escritor/Autor


Por razões funcionais (e de imagem, ainda), o estatuto do homem que se pretende afirmar como escritor não se compagina com as demais actividades por si acumuladas na vida prática-profissional. Para uma boa gestão do aparecer público, essas actividades devem ser remetidas para uma espécie de limbo, a fim de que o protagonismo cultural resplandeça em plenitude no papel de criador ou, então, para que a desejada plenitude se veja minimamente empalidecida pela concorrência e pelo rodar dos tempos.

 

Postulam as leis de mercado que não bastará, para se ser escritor, ter escrito uma ou mais obras de interesse notável por um ou outro motivo. Na ausência de produção em razoável continuidade, de frequência satisfatória, o nome-estatuto do escritor fica ainda mais exposto àquela erosão temporal, restando-lhe por hipótese a sorte da evocação por ter sido o Autor de tal obra de mérito reconhecido. Na lógica perversa deste processo pode ainda suceder que a notabilidade se tenha ficado a dever a temas bastante datados, com grandes probabilidades de às obras-Autores aderirem etiquetas de tempo entretanto imobilizado pela factualidade histórica.

 

Em breve relevo expostas, estas duas ou três regras mortíferas convêm ao método de que nos servimos para, com alguma objectividade, finalizarmos o traçado conciso das imagens e protagonismos disseminados nos discursos dos escritores. Recorrendo à tese de P. Bourdieu (do primeiro fragmento em epígrafe), mas adaptada aos respectivos contextos e situações pessoais, poderemos entrecruzar as quatro noções aí evocadas de “capital économique”, “symbolique, durablement” e “court terme”.

 

No essencial, em todos os testemunhos recorre um similar fundo social e político que se desdobra no eixo diacrónico abrangente da situação colonial, da censura política e da descoberta eufórica da soberania nacional de Cabo Verde. Sobre esse eixo histórico instala-se a “continuidade sincrónica” (aspectual permansiva) do historial económico de carências que justificam a frequência de certas temáticas locais, os condicionalismos da emigração e a fenomenologia da diáspora. Embora fique implícito, sublinhamos que os dados do Quadro I valem, por uma questão de método interpretativo, como operadores de seriação destes materiais de interesse literário e dos vários estilos empregues, a todo o momento realinhados em função dos perfis humanos dos escritores convocados.

 

Em vez de se ligar ao campo económico, o “court terme” reporta-se com maior pertinência à noção arriscada dos desafios ideológicos lançados contra o regime colonial que marcou sobremaneira o temário e a produção dos autores de mais escassa obra. Embora comum a todos (não necessariamente com directas implicações políticas), os desafios ideológicos terão constituído em alguns casos o principal motivo da escrita, da escrita como arma de arremeço-reacção em vez de prática cultural por vocação.

 

Aos nomes de Aguinaldo Fonseca e de J. H. Oliveira Barros aderem de preferência os retratos a “court terme” de ideologias expurgadas, de intervenção literária de grande vigor elocutório, no primeiro, e de biografia militante de bastante poder motivador, no segundo, ao passo que o “durablement” da movediça economia de vida (em diáspora) se associa, em Luís Romano e em Teobaldo Virgínio, à porfia das escritas diversamente realistas, de muito vincado empenho documentalista no primeiro, e preferencialmente autobiográfica e lírico-evocativa no segundo.

 

Exemplares quanto ao estrito capital “symbolique” são, por sua vez, os retratos dos escritores Orlanda Amarilis e João Vário, ambos igualmente desenhados em discursos de expurgo, mas de perfis em oposição. Em O. Amarilis comparece a referência a casos em favor da autobiografia da escritora em diáspora, mas sem dramatismos, pacificada transculturalmente, enquanto no discurso de João Vário irrompe uma autobiografia de intelectual puro, envasado numa inquieta propedêutica filosófica e numa simbologia ostensiva, pessoal, de cosmopolitismo universalista de matriz crioula.

 

Dois escritores que sob vários pontos de vista se opõem, Corsino Fortes e Manuel Veiga, especificam equivalentes posições “risquées de valor “symbolique”, em função dos respectivos investimentos estéticos inaugurais. No discurso de C. Fortes sobressai a imagem de autor de poiesis, esteta meditativo da prática significante (espaço, tipografia, ortografia) orientada para uma escrita conotativa de grande pujança evocadora. Ao de M. Veiga convém antes a ideia de empenho diversamente afincado no resgate da arte do crioulo, no tirocínio da escrita narrativa. A forma -“caso” que pode aproximar estas duas imagens de pendor teorético e exegético, diferencia-as pelos dados autobiográficos. No primeiro, traça-se o perfil da contenção intelectual, ao passo que no segundo tende-se para a valorização praxiológica (sobretudo na linguística do crioulo).

 

Alguns dos traços que nestes dois esboços de perfil trabalham para os diferenciar são ainda os mesmos, além de outros, que entram em acção convergente, “symbolique”, na imagem que de si oferece Tomé Varela da Silva. A concisão discursiva, levada agora a alto grau de economia, e o investimento na promoção literária do crioulo constituem o lastro das características maiores desta figura de actor, por inteiro dedicado ao trabalho etnográfico e aos estudos no resgate das poéticas do vernáculo (em crioulo).

 

Quatro nomes formam um retrato de várias afinidades (mas com a discrepância de um deles), O. Osório, M. Fonseca, A. Vieira e J. C. Fonseca. De acordo com os dados do Quadro I, tendem para a aproximação dois a dois, com a ressalva, ainda, de os três primeiros terem impressa uma marca-de-água de posições “risquées”do tempo do grupo juvenil “Seló”. Dos seus textos também emergem perfis de contorno autobiográfico, tendo em comum o sentido de “durablement” por referência social, porém demarcados pelas respectivas poéticas.

 

Nos discursos de O. Osório e de M. Fonseca ressalta explicitamente a prevalência estética/ética de consciência bem integrada e definida nos planos pessoal (erotizada em O. Osório)[5] e social (predominante e de veemente força elocutiva em M. Fonseca). Nos de A. Vieira e J. C. Fonseca vislumbra-se, antes de mais, o culto zeloso de uma estética que tende constantemente para a errância e para a irreverência em relação ao denotado, insubmissa quanto aos postulados poético-discursivos de lógica racional[6] sancionados por hipotético cânone social normativo.

 

Nos textos das suas entrevistas, M. Lopes e M. Ferreira oferecem de preferência a ostensão das respectivas competências literárias, ambos desenhando retratos de corpo inteiro, “durablement” talhados em distintos perfis. No de M. Lopes sobressai a vocação do labor intelectual, de escritor “symbolique” de referência, graças ao papel integrador e (com outros) fundador do grupo Claridade[7]. Empenhado na praxis solitária, autodidacta extreme, busca apreender na escrita (narrativa e poesia) teoricamente muito meditada a plena verosimilhança ficcional da realidade social, aliás, por si mesmo vivenciada como agricultor[8].

 

O retrato que M. Ferreira de si oferece é mais o de homem concreto, de letras e de acção, politicamente determinado, facto que a subtileza de M. Laban põe em evidência ao começar pelas questões da historiografia literária cabo-verdiana que o entrevistado bem conhecia[9]. Militância cívica, investigações literárias, escrita criativa, ensaísmo e docência são itens que comparecem no seu perfil verbalizado em respostas dissertativas. Em largas páginas, compõe uma imagem coerente e harmonizadora das mundividências portuguesa e crioula, esta em especial.

 

Um elemento importante do retrato, graças à argúcia de M. Laban, é a casuística que suscita. Tal como sucede com José Evaristo de Almeida (autor do séc. XIX)(D’Almeida, 1989), em M. Ferreira reaparece a questão da pertença nacional dos criadores literários, a nosso ver resolúvel (precariamente) por recurso à conceptualização estruturalista, “escritores” de nacionalidade portuguesa, “autores” das historiografias portuguesa e cabo-verdiana.

 

Nos restantes depoimentos que M. Laban nos oferece é evidente a relação dialogal activa, mantida com três escritores que conotam “durablement” a genuína iconografia “symbolique” de referência, “homens de cultura” em gerações literárias sucessivas, B. Lopes (Claridade), T. de Sousa (Certeza)[10] e G. Mariano (“Suplemento Cultural”)[11]. Os espaços de vivência evocados, entre o mais cingido ao universo crioulo (B. Lopes) e o mais expandido pelo mundo (G. Mariano) podem explicar a tipologia e a recorrência dos tópicos relevantes, todos eles entrosados em retratos de praxis cívica de momentos históricos exemplares.

 

Escritores de formação universitária plenamente concretizada, todos eles, e talvez por isso, protagonizam histórias que negligenciam a centralidade do ser-em-si, género autobiografia, em favor de testemunhos do ser-para-o-outro, como memória dos tempos observados a partir da tribuna das respectivas especializações. As figuras do professor, do médico e do juiz emergem, também elas, uma a uma, de corpo inteiro, na valorização das tradições genuinamente cabo-verdianas, etno-linguísticas (B. Lopes), etno-culturais (T. de Sousa) e etno-identitárias (G. Mariano).

 

Deve-se ainda a essas poses em retratos magnificados o facto de os testemunhos deles poderem ser lidos em dupla entrada. No plano literário, iluminam as significações e os sentidos das obras (narrativa e poesia) de que são Autores e, no sócio-cultural, dão corpo a um ensaísmo-cronística de garantida idoneidade e participação activa, apto a funcionar como fonte informativa em primeira mão de irrepetível valia historiográfica (irrepetível, porque entretanto falecidos).

 

Concluímos por onde começámos. Ao perfil intelectual de Michel Laban aderem de facto as qualidades do estudioso de escopo humanista que, como temos procurado descrever, permitiu aos escritores encenarem uma galeria de retratos de fala humana, cultural e literária. Quanto a nós, devemos-lhe a possibilidade de, para o bem comum, entretecermos algumas palavras de admirativa satisfação.

 

 

 

 

 

Referrências Bibliográficas


BARTHES, Roland. “L´ancienne rhétorique”. Communications, Nº 16. Paris: Seuil, 1970.

---------- “Éléments de Sémiologie”. Communications, Nº 4. Paris: Seuil, 1964.

BOURDIEU, Pierre. Les règles de l´art. Paris: Seuil, 1992.

COELHO, Jacinto do Prado (Coord.). Problemática da Leitura, aspectos sociológicos e pedagógicos. Lisboa: Centro de Literaturas de Expressão Portuguesa das Universidades de Lisboa (CLEPUL)/INIC, 1980.

D´ALMEIDA, José Evaristo. O Escravo, Linda-a-Velha: Edições ALAC, 1989.

LABAN, Michel (Org.). Angola-Encontro com Escritores, 2 vol. Porto: Fundação Eng. António de Almeida, s.d. [Dep. Legal, 1991].

--------- Cabo Verde-Encontro com Escritores, 2 vol. Porto: Fundação Eng. António de Almeida, s.d. [Dep. Legal, 1992].

--------- Moçambique-Encontro com Escritores, 3 vol. Porto: Fundação Eng. António de Almeida, 1998.

LOPES, Baltasar. Chiquinho. Lisboa: Vega, 2006.

---------- . Trad. em língua francesa por Michel Laban. s.l.: UNESCO/ACTES SUD, 1990.

MESCHONNIC, Henri. Pour la poétique I. Paris/ Gallimard, 1970.

STAIGER, Emil. Conceitos Fundamentais da Poética. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1969.

 

 

 


[1] “La pratique de la poésie, au contraire des idées toutes faites, révèle en comme le «sésame» d´un rapport nouveau, du mystère possible, le mot même qui signifie «poésie», depuis le Comme de Desnos [...] (Meschonnic, 1970 : 121).

[2] Constam do 1º vol., em sequência, os encontros individuais com Baltasar Lopes, Manuel Lopes, Manuel Ferreira, Henrique Teixeira de Sousa, Luís Romano, Aguinaldo Brito Fonseca, Orlanda Amarilis, Teobaldo Virgínio e Gabriel Mariano; no 2º vol., a sequência regista os encontros individuais com Corsino Fortes, Oswaldo Osório, João Varela, Mário Fonseca, Arménio Vieira, João Henrique Oliveira Barros, Manuel Veiga, em grupo com Rui Figueiredo, Leão Lopes e Germano Almeida, individual com Jorge Carlos Fonseca, em grupo com Jorge Miranda Alfama, José Luís Hopffer Almada, Manuel Delgado e Manuel Brito Semedo, e individual com Tomé Varela da Silva.

[3] Imagens que também constituem o traçado da “última vontade” dos escritores entretanto falecidos: Baltasar Lopes, Manuel Lopes, Manuel Ferreira, Henrique Teixeira de Sousa, Gabriel Mariano, João Varela, Mário Fonseca.

[4] Dito de Osório Mateus: “carácter repressivo da escrita universitária” (Barthes, 1970). Em versão de Eduardo do Prado Coelho: mito da violação/simbologia da brancura: temor em conspurcar a pureza do branco da página: “violar esse branco implica dizer-se alguma coisa que o mereça”.

[5] Além de O. Osório, cremos ser apenas a poesia de Vera Duarte a também erotizar o corpo verbalizado. Na poética de Arménio Vieira, a ocorrência do tópico tende para a sexualização (do erótico), com excepção do poema “Isto é que fazem de nós”: “«Estava um dia/ lavando a roupa/ pernas despidas/ por causa do vento/ ele me tentou/ ele me beijou.../ ele era tudo/ e eu ninguém/ --Foi assim/ e só por isso!//////É sempre à noite/ (na intimidade que a noite provoca/ que escuto histórias/ do meu amor/ ...a perdição/ dos meus amores!”. In Vértice, nºs 334-335, 1971; apud Manuel Ferreira. No Reino de Caliban, vol I (Cabo Verde e Guiné Bissau). Lisboa: Seara Nova, 1975, p. 222. Notemos, neste belo poema tipo cantiga de amigo, os pontos de aplicação accional: na primeira estrofe, causativa, os pretéritos aspectuais do fazer inconcluso (imperfectum) onde se dá a irrupção da isotopia erótica (“pernas despidas”), o desenvolvimento amoroso (“tentou”, “beijou”), a valoração (“ele era tudo”) e a justificação (“Foi assim/ e só por isso”). Depois do branco inter-estrófico (//////), na segunda estrofe, consecutiva-consequente, o presente da vivência durativa de recolhimento diário (“sempre à noite”), o embalo nostálgico (“escuto histórias/do meu amor”) e, de novo em epílogo estrófico, o finalizar da anterior justificação (“a perdição/dos meus amores”). Ora, do plural do sintagma “dos meus amores” só se pode em rigor inferir “das minhas relações amorosas com ele” que, logicamente, se teriam desenvolvido depois da causa necessária disso (“só por isso!”) no intervalo de tempo entre o passado do encontro (na 1ª estrofe) e o presente permansivo da evocação (na 2ª estrofe). Ora, textualmente, esse intervalo de tempo coincide com o branco separador das estrofes, branco separador que, por isso, funciona como um significante vazio, conotador do lirismo erotizado e do pudor (feminino), elipse-omissão do vulgar dizer explícito (cf. acerca deste tópico, Barthes,  1970

[6] As escritas destes dois autores naturalizam, cada uma a seu modo, alguns dos postulados surrealistas.

[7] Claridade, Nº 1. S. Vicente: ed. “Claridade”, Março/1936 (nove números, o último dos quais em Dezembro/1960).

[8] Praxis solitária, por residência de cerca de catorze anos na Ilha do Pico, Açores, e agricultor durante uns anos em Santo Antão.

[9] Além de Portugal, M. Ferreira residiu em Cabo Verde, Índia e Angola. Em Cabo Verde, terá sido o fomentador do ideário neo-realista que inspirou a juventude responsável pela revista Certeza.

[10] Certeza, Nº 1, S. Vicente: Fôlha da Academia, Março/1944 (dois números, o 2º em Junho/1944).

[11] “Suplemento Cultural”, Nº 1. (do Boletim Cabo Verde), Praia: Imprensa Nacional, 1958 (número único).

 

Pour citer cet article:


Carvalho, Alberto. "Michel Laban “à l´écoute” dos Escritores Cabo-Verdianos", Plural Pluriel - revue des cultures de langue portugaise, [En ligne] n° 6, printemps-été 2010, URL: http://www.pluralpluriel.org/index.php?option=com_content&view=article&id=258:michel-laban-a-laecoute-dos-escritores-cabo-verdianos&catid=75:nd-6-litteratures-africaines-de-langue-portugaise&Itemid=55