A questão dos empréstimos através das literaturas africanas de língua portuguesa

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Conferência inédita pronunciada na UNESCO, no Dia da Língua Portuguesa[1]

(5 de Maio de 2006)

 

 

 

Michel Laban

Université Paris 3 – Sorbonne Nouvelle

 

 

 

Os cinco países africanos cuja língua oficial é o português têm, aproximadamente, 32 milhões de habitantes – mas cada um deles apresenta uma situação linguística bem distinta. Não vou entrar em pormenores: o que é importante é assinalar que, desde 1975, ano das independências, se nota um aumento do número de falantes tendo o português como língua materna. Este aumento é especialmente visível em Angola, São Tomé e Príncipe e, se bem que de maneira menos flagrante, em Moçambique. No caso de Cabo Verde e da Guiné-Bissau, a percentagem da população tendo por língua materna o português continua a ser muito fraca. Nestes dois países a língua portuguesa usa-se essencialmente nos actos de comunicação formal. Se em Cabo Verde uma grande parte da população pode exprimir-se num português mais ou menos correcto, na Guiné-Bissau apenas uma fracção restrita da sociedade tem esta capacidade. Nesses dois países a língua de comunicação corrente é o «crioulo» – isto é, o cabo-verdiano ou, na Guiné-Bissau, o kriol.

 

Há vários anos que venho a estudar a produção literária destes cinco países sob o ângulo das particularidades semânticas, morfológicas e sintácticas. A norma de referência que escolhi foi a de Lisboa (evidentemente, por razões históricas), e sistematicamente fui pondo em fichas todos os termos e expressões que se afastam da língua padrão; numa segunda fase interroguei os autores – sempre que me foi possível – e recolhi as definições ou explicações que me deram. Graças a esse material, posso dar-vos conta aqui de algumas observações que dizem respeito a um domínio preciso, o dos empréstimos.

 

Em linguística, diz-se que há empréstimo quando um falar usa e acaba por integrar um traço linguístico que existia precedentemente noutro falar.

 

Vou ler-vos, para começar, alguns versos do «Hino à minha terra», publicado em 1964, do grande poeta moçambicano José Craveirinha, em que são cantados:

 

a música da timbila e do xipendana
o ácido sabor da nhantsuma doce
o sumo da mapsincha madura
o amarelo quente da mavúngua
o gosto da cuácua na boca
e o feitiço misterioso de Nengué-wa-Suna.


Para cantar a sua terra, José Craveirinha recorreu a vários empréstimos às línguas locais, mas sem pôr notas explicativas – o que, sobretudo no contexto colonial, dava ao acto de criação poética um alcance nitidamente nacionalista[2].

 

Antes de observar mais em detalhe a questão dos empréstimos na língua literária de Moçambique, proponho dar uma vista de olhos pelo que se passa nas outras literaturas africanas – onde, naturalmente, existe o mesmo fenómeno. Claro, citarei apenas alguns exemplos.

 

No caso de Angola – aliás, como nos outros países africanos –, a maior parte dos empréstimos que notamos provém das línguas locais:

- principalmente do quimbundo (língua da região de Luanda-Malanje), com as exclamações aiué ou auá, cabetula (n° 1 – nome de uma dança de carnaval), cahombo (variedade de malagueta), calemba (ou calema, agitação do mar, tempestade), camauindo (n° 2 – que tem os pés feridos por pulgas penetrantes), etc.

- mas também do umbundu (região central), com anhara (n° 3 – grande planície apresentando uma vegetação rasteira), ecato (n° 4 – presente oferecido pelo comerciante ao bom freguês), libata (n° 5 – aldeia, residência de uma família), etc.

- e ainda do kikongo (Noroeste do país), com nzimbu (n° 6 – pequeno búzio que servia de moeda), nkisi (n° 7 – espírito), saka-saka (esparregado de folhas de mandioca cozidas em óleo de palma), etc.

 

Passemos agora à Guiné-Bissau. Aí, o português literário aparece como uma língua de compromisso: o escritor introduz, quase artificialmente, elementos do chamado crioulo guineense ou kriol, para, por um lado, poder ser lido nos outros países de língua portuguesa e, por outro, poder mostrar a personalidade cultural da sua terra através duma coloração lexical e sintáctica. Como no caso da literatura angolana, encontramos vários empréstimos às línguas locais (aqui, é o mandinga, o balanta, o fula, etc.). No entanto, estes empréstimos passaram todos pelo kriol. É o caso de bagabaga (n° 8 – térmite, mas que na realidade provém do mandinga), bantabá (n° 9 – terreiro, pátio onde se reúnem as pessoas, à noite; também provém do mandinga), sufa (guarda e ajudante do rei, na sociedade tradicional; termo de origem fula), etc. Outras formas vêm do português – contudo, mais uma vez, passando pelo kriol: mata-bicho (ou "mata-bitchu", pequeno almoço, n° 10 – significado que encontramos também nos outros países africanos), mantenhas (cumprimentos, saudações – talvez a partir de Deus te mantenha), morança (n° 11 – conjunto de casas em que mora uma mesma família), etc.

 

Em Cabo Verde, constatamos o mesmo fenómeno de língua de compromisso, pois seria praticamente impossível que alguém, numa situação normal, usasse o português tal como aparece na literatura. Aqui, os empréstimos dizem respeito principalmente ao cabo-verdiano (que tem muitas afinidades com o kriol da Guiné-Bissau). Por trás do cabo-verdiano, conseguimos por vezes identificar uma influência do continente africano: por exemplo bambum (n° 12 – posto às costas – tratando-se dum bebé –, envolvido num xaile apertado nas costas da mãe – termo mandinga), buli (cabaça que serve de vasilha; termo também mandinga), tabanca (associação de socorro mútuo, na ilha de Santiago)... Estas três palavras usam-se também no kriol da Guiné-Bissau (mas tabanca significa lá aldeia). No entanto, por trás do cabo-verdiano, é a base portuguesa que se identifica com a maior frequência. Vejamos por exemplo: as águas ou as as-águas, que significa "época das chuvas e dos trabalhos agrícolas", bandeja (presente – de comestíveis – que se manda num cesto à casa dos noivos, por ocasião das festas de casamento), cretcheu (n° 13 – pessoa amada, de querer e cheio, muito). Às vezes, é o português do Brasil que aparece, por exemplo nos termos aboio (cantiga monótona dos condutores de bois durante a faina do trapiche), bloco (grupo institucionalizado de pessoas que organizam e festejam o Carnaval), brabo (n° 14 – forte, violento, bravo) ou ainda cachorro (que significa cão em geral, independentemente da idade), etc. Ainda em relação a Cabo Verde, assinalemos algumas influências do inglês, pois a ilha de São Vicente foi utilizada, entre 1850 e 1940, como depósito de carvão pela marinha britânica: por exemplo allô, interjeição de saudação; ou ainda broda (n° 15 – irmão, amigo) ou catchir (agarrar).

 

Observando agora a situação em São Tomé e Príncipe, constatamos também uma influência do continente africano, particularmente através de Angola: cazumbi (alma do outro mundo, em quimbundo – a palavra usa-se também no Brasil), dendê (fruto duma palmeira, que fornece o óleo da cozinha tradicional – palavra do quimbundo e também presente no Brasil), dongo (canoa, igualmente do quimbundo)... No entanto, como em Cabo Verde, a maior parte dos empréstimos da língua literária vem do crioulo local, o forro, com ligeiras adaptações: água (n° 16 – aua, com o significado de rio ou ribeiro), água mato (aua matu, isto é, enchente, cheia, água que vem do mato), bate-mão (batê mom, festa improvisada, com música rudimentar), pau (n° 17 – pó, isto é, qualquer árvore)...

 

Depois destas observações panorâmicas, deter-me-ei agora no caso da língua literária de Moçambique.

 

A influência das línguas locais é evidente, como vimos no poema de José Craveirinha. Os empréstimos provêm do ronga ou changana (sul do país); é o caso de babalaze (ressaca de alguém que bebeu na véspera), dumba-nengue (mercado ilegal – expressão significando confia no pé, pois os vendedores desses locais devem ser capazes de fugir, de preferência com os produtos, quando aparece a polícia), madala (pessoa de respeito pela sua idade e posição social – palavra comum a muitas línguas da região); provêm também do chuabo (Zambézia), do sena (Beira), do macua (Nampula), etc.  Estes empréstimos dizem respeito aos domínios da fauna e da flora, das tradições, dos múltiplos aspectos da vida social e individual (isto é, o trabalho, a indumentária, a habitação, a alimentação, etc.).

 

O português literário de Moçambique também se fez a partir dum substrato europeu – caso do português, do inglês e, em certa medida, do afrikaaner – mas os empréstimos a estas línguas passaram primeiro pelas línguas africanas antes de ser usados pelos escritores. Vejamos, por exemplo, o caso de xicandarinha, termo do ronga e formado, talvez, a partir do português caldeirinha. Outros casos: chicudo, de escudo (em muitas línguas); ginga, que significa bicicleta no centro do país, pois o acto de pedalar implica uma certa gingação; mapurissa (por polícia, também no centro do país); mimova (plural de mova, que significa automóvel em ronga); ou ainda xitarada (n° 18 – estrada em várias línguas).

 

O mesmo fenómeno dá-se no que diz respeito ao inglês: temos assim as formas bacecola ou basscoro (bicicleta, no centro do país); chitolo (loja do mato, a partir de store); flate (apartamento); fô-bai-fô (n° 19 – de four by four, carro de tracção a quatro rodas); xitimela, n° 20 – comboio, de steamer; Quissimusse (n° 21 – Natal, que provém de Christmas), etc.

 

Quanto à influência do afrikaaner, esta foi muito mais leve. Notemos no entanto o ya que pontua tantas conversas, equivalendo a sim: «― Isto é um trabalho fácil – diz-me ele. / ― Ya, parece-me que não vamos demorar muito aqui.»[3]. Outra palavra muito corrente é o bassopa, que significa cuidado (n° 22) e que se vê por vezes nos Países Baixos, em particular nas estações de caminhos de ferro: Pas op !... Acrescentemos o termo kraal (que designava, no tempo colonial, até ao princípio do século XX, a aldeia do chefe tradicional), pois tem uma particularidade interessante: trata-se, na origem, do curral português, que passou para o afrikaaner e voltou para o português de Moçambique com um novo significado.

 

Para acabar este rápido relance sobre o fenómeno dos empréstimos, tratarei agora da influência do português do Brasil sobre a língua literária de Moçambique. A lista das correspondências é longa: afobado; agorinha mesmo; analfa; ata; aterrisagem; azucrinar; batecum; boboca; botar a boca no trombone; cacunda; cadê; cafuso; caminhão; candongar; capanga; capim; carona; casa grande; chará (e xará); cipó; corre-corre; cotucar (isto é, cutucar); cuca; curtição; curtir, etc.

 

Em vários casos, os empréstimos ao português do Brasil são, na realidade, palavras de origem angolana que fizeram a ida e volta: é o caso de bunda (nádegas), caçula (filho mais novo), moleque (jovem empregado doméstico), etc.

 

Actualmente e ao nível dos cinco países, a influência brasileira explica-se pelo sucesso das telenovelas (alfa n° 23, alô, bate-boca, cadê...); antes da independência, estava sobretudo ligada à literatura e eventualmente ao cinema (capanga, casa grande, cipó, molecada, papai...). Ler os autores do Nordeste e inspirar-se da sua liberdade de expressão era para os escritores africanos uma maneira de manifestar o seu desejo de autonomia.

 

Para ilustrar de outra maneira a complexidade das situações linguísticas e, assim, entender melhor o trabalho de exploração lexical e, por vezes, sintáctica que os fundadores destas literaturas realizaram (e continuam a realizar), concluirei com um extracto de uma entrevista dada pela escritora moçambicana Paulina Chiziane – nascida em 1955:

 

"A minha primeira língua é o chope. O chope fala-se em Gaza e também em Inhambane".

 

Eu nasci em Gaza, o meu pai e minha mãe falam ambos a mesma língua. Entretanto saímos de Manjacaze e viemos para os subúrbios da cidade de Maputo, onde se fala ronga. E cresci no subúrbio. Quando começo a ir para a escola, tenho o primeiro contacto com o português. O meu pai é muito radical, sim: ele nunca permitiu que se falasse português em casa. Não aceitava. Ele considerava que nós tínhamos obrigação de conhecer a nossa própria língua. Agora, a língua de comunicação, de progresso, isso é lá fora, porque, em casa, não deve ser assim.

 

Bem, em casa, falava chope. Com as amigas, na rua, nos subúrbios de Maputo, tinha que falar o ronga; na escola, comecei a ter contactos com a língua portuguesa e falava com muita dificuldade. E porque estudei numa escola missionária católica, era obrigada a ir para a igreja, católica, quando as missas eram em latim!

 

Até fazer a minha escola primária toda, foram quatro anos: fui à missa todos os dias, mas ainda hoje não sei o que é que o padre dizia! Mas era interessante, pois nós memorizávamos tudo e dizíamos tudo! Não sei se o padre pensava que nós sabíamos, que entendíamos. De facto, foi esse o ambiente de línguas em que eu vivi.

[...]

 

No trabalho da escrita enfrento dificuldades linguísticas. Descrevo vivências populares moçambicanas em língua portuguesa. Existem expressões de sentimento popular que não encontram sinónimos na língua portuguesa e aí as coisas começam a não dar certo. A solução deste conflito seria escrever na minha própria língua mas, infelizmente, não a sei escrever – o sistema educacional em Moçambique não ensina as línguas maternas. Mesmo que conseguisse escrever teria um número muito limitado de leitores porque aqui existem muitas línguas para além do tsonga. Enfim, é uma situação complicada.

 

Para mim, a utilização da língua portuguesa na escrita é um grande dilema. Na própria Balada há uma série de termos que eu uso, que eu não sei se deviam ficar de uma maneira ou de outra. Por exemplo, quando se fala de amor: bem, em português, porque eu ouvi – os meus namorados, pelo menos –, diziam: «Eu amo-te», enfim, com uma voz mais bonita ou menos bonita, mas é nesses termos. Na minha aldeia, a declaração de amor é diferente, é: «Na kurandza, na kurandza, na kurandza», mil vezes... Então, há uma frase que eu ponho ali: «Eu amo-te, amo-te, amo-te mil vezes amo-te». Quer dizer, isso é mais ou menos uma tradução daquilo que o povo sente, daquilo que o povo diz. E, ao fim e ao cabo, está escrito em português mas não é português, não é nada, é uma coisa qualquer. Fecho os olhos e digo: «Que saia! Aquilo que der, deu, e pronto!» Uma coisa que eu deixo muito clara: português padrão, nunca! Não estou interessada.[4]

 

 

 

Referências

 

1. cabetula: L. Vieira, Lourentinho 82 (28) Estes moços não deixam o ritmo, cazucuta ou cabetula, em mãos alheias ▬ «Do quimb. ku betula – dança tradicional, de carnaval.»

2. camauindo: U. Xitu, Ministro 121 (7) Toni também tinha calça rasgado, sapato descalço e andar camauindo. ▬ «Que revela a presença de muitas bitacaias (diuindo) nos pés, quando anda.»

3. anhara: A. de Almeida Santos, Rua onze 58 (8) O verde dos muxitos, / Os longes das anharas ▬ «Planícies extensas, de árvores rasteiras. (É quase a mesma coisa que chana. Anhara é mais usado no centro do país, na província do Bié. No Leste, chamam-lhe mais chana.)»

4. ecato: O. Ribas, Ecos 89 (3) E como o comerciante permanecesse a olhá-lo em silêncio: — Agora, dá-me o ecato... Olha que levei muita coisa... ▬ «[Gloss.] Brinde de compra. O que o comerciante oferece ao comprador no final de uma boa transacção. O mesmo que maluvu-a-kitanda, entre os povos de língua quimbundo. / T. umb.»

5. libata: Pepetela, Yaka 123 (14) As libatas reunidas nalgumas só, sem árvores à volta, mas com guaritas de polícias. Lista de habitantes, sai da libata marca cruz, entra na libata marca traço ▬ «Conjunto de cubatas rodeadas por um cercado ou sebe e pertencente a um mesmo senhor. (Umbundu.)»

6. nzimbu: M.P. Pacavira, Nzinga 61 (19) Mulheres muitas de cestas na mão, os peitos de fora, a apanharem pequenos búzios – para as praias aonde ajuntam em montes e montes: o cyproea caurica, a moeda do kongo: Nzimbu, ou Njimbu. ▬ «Pequenas conchas que serviam de moeda no tempo da rainha Nzinga.»

7. Nkisi: H. Abranches, Misericórdia 323 (30) As almas da Santa e do Anjo da Guarda foram para  lugar desconhecido porque ninguém as viu, o moyo foi tragado pelas chamas, mas o espírito, o Nkisi, voou para muito longe ▬ «(Pron. nkíssi.) Espírito. (Kikongo.)»          [O moyo: «Espírito, força da vida. (Não é a alma! Nós somos vivos porque temos o moyo. O eu é muito mais raro e muito menos firme que o nós. O eu só existe fortemente no seio do nós – e o indivíduo perde facilmente a sua categoria de pessoa para cair na categoria de espírito.)»]

8. bagabaga: T. Montenegro e C. de Morais, Uori 73 (11) Preparou-se para parir logo ali no mato, atrás de um morro de bagabaga. / Acontece que atrás do bagabaga estava uma onça a parir. ▬ «[Nota.] Bagabága: s. térmite, salalé, cupim, termiteiro, morro de bagabaga. (...) As variedades correntes na Guiné são a bagabaga burmeju (Macrotermes), térmite de cor castanha – burmeju em criol – que vive nas terras altas e lateríticas e constrói ninhos de vários metros de altura em forma de pirâmides ou catedrais de tijolo, e a bagabaga pretu (Cubitermes), de coloração cinzenta escura – pretu em criol –, que habita nas terras baixas e húmidas, em morros pequenos da mesma cor, de contextura argilo-arenosa e forma de cogumelo. (...)»

9. bantabá: T. Montenegro e C. de Morais, Uori 8 (33) Então o rei mandou reunir toda a gente no bantabá. Apenas uma mulher ficou em casa, só. ▬ «[Nota.] Local de reunião dos grandes, provido de um estrado de troncos ou bambús construído à sombra de árvores frondosas; terreiro de uma aldeia onde se congrega a população por ocasião de acontecimentos importantes. (...)»

10. mata-bicho: A. Sila, A últ. tragédia 30 (1) devia experimentar para depois explicar às mulheres dele a diferença entre sentar-se de manhã a uma mesa e tomar calmamente o mata-bicho e o acordar com o segundo galo e começar a pilar arroz ▬ «Pequeno-almoço.»

11. morança: A. Sila, A últ. tragédia 127 (27) Admitiu que podiam ainda fazer muito mais e fazer chegar a felicidade a todos os lares, a todas as moranças, a todas as tabancas. ▬ «Conjunto de casas que normalmente pertence a uma mesma família. Tabanca é um conjunto de moranças. Cada morança normalmente pertence a uma determinada família. Se é uma morança grande, como a de um régulo, tem de ter forçosamente um terreiro. A tabanca então organiza-se com vários terreiros. Há um terreiro central, que é geralmente o do régulo. Depende do tamanho das tabancas. Em determinados casos, quando um indivíduo atinge uma determinada idade, funda uma família e tem que criar a sua morança à parte. Assim, a tabanca vai-se alargando. A morança habitualmente tem uma vedação.»

12. bambum: L. Romano, Negrume 101 (18) Minha Língua não é aprendida nem praticada numa escola assim, / nela é que fui ninado e "bambum" nas costas da Minha Mãe. ▬ «Atado ao lombo; posto às costas, envolvido num xaile que se aperta no tórax da mãe.»

13. cretcheu: O. Amarílis, Mastros 30 (34) Mangueiras de sombra dengosa a tapar nossos beijos de fugida no pescoço das cretcheu ▬ «Namorado, namorada. Termo cabo-verdiano que, traduzido à letra, significa querer muito. (Tcheu = cheio.) Eugénio Tavares utiliza o termo em alguns dos versos e é um vocábulo corrente.»

14. brabo: B. Lopes, Chiquinho 245 (12) quando o vento, rondando de noroeste, se fixa no sueste brabo que levanta maresia e empurra os veleiros para o cemitério dos navios. ▬ «Vem de bravo. Ideia de violento, agreste, ríspido

15. broda: O. Osório, Raízes n° 1, 64 (35) esperava carta de chamada para a França, do seu broda mais velho. ▬ «Irmão. (Inglês crioulizado.)»

16. água: S. Marky, No altar da lei 83 (23) aproximava-se, a grandes passos, da jaqueira em baixo, junto da água Chó-Chó. ▬ «A ilha de São Tomé é de origem vulcânica, montanhosa, o pico mais alto tem 2 020 metros de altitude, os cursos de água são numerosos mas de pequeno curso e dão-lhes o nome de águas. Água de Chó-Chó, Água Casada, Água Grande (o rio que banha a cidade de São Tomé). As grandes roças de cacau eram, antigamente, delimitadas por essas águas a que, por vezes, dão o nome de rio (Rio do Ouro) mas que não passam de ribeiros.»

17. pau: S. Neto, Vovó Marquinha 61 (17) A tarefa marcante seria a carpa do cacau maduro, que aloirava já, agradavelmente, em todos os «paus». ▬ «Árvore, em geral.»   [Carpa = colheita.]

18. xitarada: Malangatana, 24 poemas 17 (28) meu casa é bonita fica li mesmo pé do lagoas / na xitarada, pintada de zuli...

▬ «Estrada.»

19. fô-bai-fô: N. Saúte, Apóstolo 78 (34) Há muito tempo que passou o tempo das adidas e dos jeans. Hoje, os meninos desembarcam para as aulas em fô-bai-fôs. ▬ «Carro de tracção às quatro rodas. (Do inglês four by four.)»

20. xitimela: M. Couto, Cron. 17 (21) hei-de procurar onde anda o xitimela menor. ▬ «[Nota.] Comboio, termo proveniente do inglês steamer

21. Quissimusse: J. Craveirinha, Karingana 100 (1) E Jesus deste Quissimusse / perdoa-nos a ciência imprescindível / do brinde a uísque e ginger-ale ▬ «Natal. Prenda de Natal. Ou simplesmente: dia de festa. (Do inglês Christmas. Na rua, quando estamos perto do Natal, antes, durante ou depois, as crianças pedem prendas dizendo: "Quissimusse!")»

22. bassopa: M. Kadir, Xiphefo n° 16 p. 13 Mas bassopa miúdo, / cuidado mesmo! / Não há povo que não vença ▬ «Cuidado. (Termo banto muito vulgarizado.)»

23. alfa: N. Saúte, Apóstolo 36 (18) latas de cerveja made in South Africa compõem a alegria de qualquer mortal acompanhado por uma alfa de grande categoria ▬ «Amante, no calão de Maputo. (É recente, penso que vem duma telenovela bras.)»

 

 


[1] NdE. O texto cedido pela família de Michel Laban para este número de Plural Pluriel não foi submetido a nenhuma reescritura e conserva as marcas da oralidade iniciais.

[2] Timbila: Marimba. Xipendana: Instrumento em forma de arco, com um arame, em que o som é modulado pela boca. Nhantsuma: Fruto parecido com a cereja, mas mais ácido. Mapsincha: Fruto silvestre, de cor vermelha, do tamanho da maçã. Mavúngua: Fruto silvestre, amarelo avermelhado quando está maduro, do tamanho e da consistência da laranja. Cuácua: Fruto com um certo azedo, mais ou menos do tamanho de uma laranja. Nengué-wa-Suna: Célebre feiticeiro, nos anos 30.

[3] Albino Magaia, Malungate, p. 112.

[4] Michel Laban, Moçambique – Encontro com escritores, Porto: Fundação Eng. António de Almeida, 1998, vol. III, p. 977, 981-982.

 

Pour citer cet article:


Laban, Michel. "Conferência inédita pronunciada na UNESCO, no Dia da Língua Portuguesa", Plural Pluriel - revue des cultures de langue portugaise, [En ligne] n° 6, printemps-été 2010, URL: http://www.pluralpluriel.org/index.php?option=com_content&view=article&id=232:a-questao-dos-emprestimos-atraves-das-literaturas-africanas-de-lingua-portuguesa&catid=75:nd-6-litteratures-africaines-de-langue-portugaise&Itemid=55